sexta-feira, 29 de abril de 2016

Política

A internet sob ameaça e o impacto dos planos limitados de banda larga 

Ao impor limites de consumo de dados em planos de banda larga, operadoras prejudicam os clientes e o desenvolvimento do país na era digital

PAULA SOPRANA E BRUNO FERRARI
15/04/2016 - 18h42 - Atualizado 15/04/2016 18h42

As operadoras de banda largaconseguiram um feito nesta semana. Uniram um país que, ao longo dos últimos meses, acostumou-se com um ambiente belicoso e polarizado nas redes sociais. Comunidades noFacebook e petições on-line com mais de 1 milhão de apoiadores exigem que as operadoras Net, Vivo e Oi suspendam seus projetos de impor franquias de dados para a banda larga fixa. A franquia que já existe para os celulares passaria a valer também para o Wi-Fi de casa. Quem atingir o limite terá a velocidade reduzida. Em alguns casos, bloqueada. O pecado das operadoras foi mexer com uma paixão de mais de 105 milhões de brasileiros, que usam a internet freneticamente para trabalhar, se entreter e se informar. Somos os campeões de uso de redes sociais. Passamos 60% mais tempo dentro de sites como o Facebook que os americanos. Cerca de 70% dos usuários de internet no Brasil usam a rede para fins educacionais. Mas são os adeptos dos serviços de streaming, como o YouTube, o Netflix e o Globo Play, que saem como os grandes prejudicados dessa mudança.

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O Brasil é a segunda maior audiência global do YouTube, serviço que se tornou o cartão de visita do streaming. A terceira maior do Netflix, com 4 milhões de assinantes. O Globo Play, que oferece a programação da TV Globo em computadores e smartphones, tem mais de 5 milhões de usuários em poucos meses de lançamento. São números que mostram a ascensão da tecnologia que permite o consumo de conteúdo sem a necessidade de fazer o download no computador. Uma inovação que, além da comodidade, é uma alternativa para driblar a pirataria on-line. Ao assinar um desses serviços, o usuário paga o direito autoral e diminui a busca por downloads ilegais. Se por um lado eles transformaram a forma como consumimos música, filmes e programas de TV, se mostraram grandes rivais das operadoras de banda larga.

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Serviços de streaming usam uma quantidade muito maior de bytes que a navegação tradicional na internet, com acesso a e-mails e sites. As operadoras alegam que o investimento necessário em infraestrutura para acompanhar a mudança de hábito do consumidor é  elevado. Argumentam que a carga tributária para equipamentos de rede é alta – e nesse ponto é difícil discordar. “A solução que encontraram para isso é restringir o direito ao usuário, quando deveriam fazer uma reforma da legislação tributária do setor”, afirma Thiago Tavares, presidente da ONG Safernet e conselheiro do Comitê Gestor da Internet (CGI).

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A preocupação com a franquia de dados é recente. Uma pesquisa realizada com consumidores americanos em 2012 questionou se eles preferiam uma banda larga mais rápida, mas com limite de dados, ou uma banda larga com velocidade mediana e um consumo de dados ilimitado. Eles responderam à primeira opção. "A diferença é que se tratava da era pré-streaming", diz Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). “O streaming mudou o jogo. É o que faz com que as operadoras tenham optado para esse modelo de franquias.”

Por trás, há também o interesse econômico. Além da conexão à internet, Net, Oi e Vivo oferecem combos que incluem telefone fixo e TV por assinatura. Para seduzir o cliente, esses pacotes costumam vir com descontos para quem topa levar os três serviços juntos. O avanço do streaming está fazendo com que muita gente deixe de assinar a TV a cabo. No modelo atual, o consumidor é obrigado a pagar por programas distribuídos numa grade preestabelecida, além de ter de incluir em seu pacote canais que não interessam – pense num casal sem filhos que paga por dezenas de canais voltados ao público infantil. Muitos consumidores estão cancelando a TV e migrando gradativamente para esses serviços sob demanda. Ao impor um limite de consumo de dados claramente insuficiente – e cobrar por pacotes adicionais –, as operadoras poderiam recuperar parte das receitas perdidas.

Não é esse, porém, o discurso oficial das operadoras. Elas justificam que, ao adotar o modelo de franquia de dados, poderão gerenciar melhor as demandas de cada cliente, cobrando menos de quem usa pouco e mais de quem usa muito. Mas quem está mais próximo de se tornar um padrão de usuário de internet no futuro? A pessoa que só acessa e-mail e lê sites ou alguém que assiste aos vídeos de notícias, passeia pelo YouTube, baixa conteúdo digital, assina serviços como Netflix e Globo Play? Números mostram que será o segundo grupo. De acordo com a Cisco, empresa que faz a medição do consumo de dados digitais no mundo, o tráfego de internet no Brasil terá crescido 2,2 vezes entre 2014 e 2019. O volume de vídeos da internet, sozinho, triplicará no mesmo período. Em médio prazo, todos estaremos pagando mais por estourar nossas franquias.

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Ao longo da última semana, ÉPOCA tentou ouvir porta-vozes das operadoras, mas recebeu como resposta apenas notas esclarecendo dúvidas pontuais. A Vivo, que também é dona da GVT, não respondeu aos questionamentos sobre o tamanho das franquias, que começam em 10 GB mensais – o suficiente para assistir a quatro capítulos de uma série no Netflix – e vão até 120 GB na tecnologia ADSL, que usa a infraestrutura das linhas telefônicas fixas. Para usuários de fibra óptica, as franquias vão de 120 GB a 300 GB, mas por mensalidades que chegam a R$ 329. Vale lembrar que estamos falando de um limite que é compartilhado entre moradores de uma residência. A média brasileira é de três moradores por domicílio. Cada um tem seu smartphone, eventualmente um tablet, além de TVs conectadas. Imagine cada um deles pendurado no Wi-Fi assistindo a vídeos e a filmes em alta resolução?

A Oi afirma que já prevê em seus contratos as franquias de dados, mas que ainda não implementa a medida. A Net disse que já pratica o limite de dados há anos. No caso, ao atingir a franquia, a velocidade da banda larga cai para 2 Mbps, o mínimo comercializado pela operadora. A única que respondeu ao pedido de entrevista foi a TIM, que não pretende adotar as franquias. “Não posso dizer que nunca vamos adotar o modelo, mas não há nenhuma previsão”, diz Rogério Takayanagi, vice-presidente de marketing da TIM. “Hoje, o consumo médio do usuário de fibra óptica é de 160 GB por mês”, diz.

A Agência Nacional de Telecomunicações, que tem dupla missão – zelar por um ambiente de negócios bom para as empresas e também pelos interesses dos cidadãos –, ficou ao lado das operadoras. Ao portal Convergência Digital, especializado no setor de telecomunicações, o superintendente de Competição da Anatel, Carlos Baigorri, disse que a adoção do sistema de franquia é esperada e positiva. “Não existe um único consumidor, então para quem está abaixo da média, consome menos, o limite é melhor. E pior para quem consome muito”, afirmou.

Limitar a banda larga fixa traz consequências que vão além de nossas casas. O Wi-Fi do restaurante provavelmente não será mais gratuito, os pesquisadores que trabalham com dados pesados terão de gastar muito em internet mensal, os estudantes que fazem cursos e graduações à distância terão um gasto extra com internet, o fim de semana inteiro no Netflix e no YouTube e os jogos de videogame on-line serão passatempo de uma pequena elite. O sistema de franquia de dados, antes de prover internet a todos, pode estimular uma estratificação ainda maior entre os brasileiros. Um retrocesso na trajetória de uma tecnologia fundamental para o desenvolvimento do país.
 

Infográfico sobre operadoras de banda larga do Brasil  (Foto: Época )
Operadoras querem frear a internet - e você vai pagar mais por isso (Foto: Arte/ÉPOCA)
Comentário:Não há muito tempo,recebemos a notícia de que a Vivo teve a brilhante ideia de limitar a internet brasileira como a do celular,tendo como desculpa que internet           
é que nem água e luz.Para ter uma noção a internet que eles te darão se isso for aprovado,acabará em menos de 24h,isso só se você usar,mas tem na sua casa provavelmente pai,mãe,irmão,irmã,marido,esposa,filho,filha,enfim,acabará empenos de um dia seu pacote de internet,e se você quiser mais internet,tem que comprar um pacote com maior capacidade.Essa está sendo um dos assuntos mais falados nessas últimas semanas,todo mundo reclamando nas redes sociais,etc.Niguém está gostando disso,e se a Anatel realmente aceitar esse acordo,o que eu espero que não aceite,vai acontecer com certeza muitas reclamações e talvez até protestos.
Fonte:Epoy